Lira Auriverde

by Onagra Claudique

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about

A Onagra Claudique é o amor aflito que crepita infinito na ânsia da paixão, na mira torta do estrábico divisando as pernas da cortesã. É o devaneio do sensato, a falha trágica do gênio, a fleuma do estóico. É o vulto da culpa que habita o oculto, velado no canto do quarto. É o brio sépia dos retratos de família, o idílio dos urbanos. É a imensidão do leviatã, a dança da vingança e o mote de Ahab. A cachalote, a jubarte, a baleia baluarte. É a cruza anômala, a mula que meneia o lombo sempre adiante. É o cenho franzido, lendo as entrelinhas, arqueando as sobrancelhas. É a resina, o esmalte do néctar que tinge a garganta áspera do abstêmio. É o farfalhar da relva, os doces gorjeares da fauna gentil. Pois que assim seja, é o afeto que se encerra em cada peito, nossa Lira Auriverde juvenil.

credits

released October 8, 2014

Gravado e produzido por Fabio Pinczowski e Mauro Motoki @ Estúdio Doze Dólares

Mixado por Victor Rice @ Copan

Masterizado por Felipe Tichauer @ Red Traxx Music

Agradecimentos: Alfredo Christofoletti, André Felipe de Medeiros, Mariana Poppovic e Nicolau Dela Bandera

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Onagra Claudique São Paulo, Brazil

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Track Name: Urtica Ardens
eu em ti
e teus cicios
asseverando
debaixo dos lençóis
“eu te amo tão macio”

“eu te segui
desde outras vidas até aqui”
tua vitória
tens em mim
está em tuas mãos
eu te amo, minha senhora

quem de nós vai buscar algo
pra ajudar acordar melhor?
“já que amanheceu nublado
e faz tanto frio
porque não ficamos por aqui?”

eu te perdi
nos teus desvios
murmurando a própria comoção
pelos cômodos da casa
você me põe tão arredio
arredio

sussurrando as tuas falhas
de conduta ao meu ouvido
doendo-se pelos cantos
nas tuas brumas turvas
nas tuas curvas que nunca atingi

“eu menti
e vim de outras vidas até aqui
pra rescindir meus pesares
desatar os nós
agora vai, que eu vou daqui
sozinha”
“eu vou”
não vai sozinha
você perdoe a palidez de minha luz
que soçobrou
e a projeção dessa sombra
tenebrosa sobra além de mim
e se distorce bem maior que eu

o amor, a meu ver
sempre foi deixar
você sair, ir e vir, livre pra voltar
quando quiser
quando quiser voltar

por que não paramos por aqui?
Track Name: Teses Taxistas
como quem sonha com sede
cede à sedução dos anseios mais primordiais
até as brechas mais vagas da imaginação

mil artifícios conduzem o leigo à preguiça
em cada imagem a máxima de um preconceito
hordas de bárbaros mansos que a plenos pulmões
difundem suas teses de taxistas

e o coração azul do pai palpita
e traduz o injusto com aplausos
ao ver privilégios onde há direitos

larvas abortadas no quintal de casa
prosperam com o espólio incauto da safra
formada por jovens mais velhos que eu

minha nostalgia serve a isca
instiga o fetiche, projeta uma cifra
no olho de vidro do CEO da empresa

larvas abortadas no quintal de casa
prosperam com o espólio incauto da safra
formada por jovens mais velhos que eu

minha nostalgia serve a isca
instiga o fetiche,projeta uma cifra
no olho de vidro do CEO da empresa

a fé que é cega
a seu defeito
o despreparo da polícia
a distração de ser artista
e a instrução da classe média

média
Track Name: Rosa Ferrugem
espero que aceite o espresso fresco
corante que entorna escuro
passado com esmero
amaro

só pra manter esse teor
de um paladar que destoa

como me tortura má
essa ternura
pá de cal

um gosto penso
escoa ao seu lado oposto

o meu desprazer
tem que equivaler a esse sabor
de doce basta a vida

no decorrer dos meses
em que passo na espreita
enquanto você se vai
eu tento me portar bem
me conformar

um tom vermelho aferroado
tempero sal amargo

como me tortura má
essa ternura pá de cal
que cultivas em torno de si

um gosto penso
escoa ao seu lado oposto

rosa ferrugem
água de quinino
temperamentos
qualquer coisa me arrasta
às agruras das minhas raízes
do bíter de angostura
à temperatura
gin zimbro seco
amar gor
Track Name: Empirimístico
vê se parece uma razão de ser
apesar de todos os percalços que atravesso
sei que ainda tenho lá meus predicados
esperando pra nascer
em papel ou em você

de fato eu preciso descobrir
uma forma de viver
um dia após o outro
sem sofrer oscilações
do sacro humor que rege a vida
e promove as decisões
me diz qual é o segredo dos sensatos?

quando estou de bem comigo eu deixo vir
o peso que se encosta em mim
disfarço e saio bem na contramão

caso não se faça aquilo que se quer
na vida uma cadência torta
vale o comodismo da ilusão

e eu que gostava do azar
dizia me esquivar com graça dos buracos
mas sempre me via num
refutando o fardo que me cabe
visitando os meus infernos
ora sim e ora não

e hoje eu reconheço
que meu descompasso
é fruto do que fui até aqui
mas ainda tiro um riso fácil
das situações mais adversas
e que talvez lidar com os impulsos do coração
se torne uma contradição

ontem você soía se exaltar
e desbocado fez calar até a mãe
e hoje na crista de qualquer distração
invoca a teima mas vive na corda bamba

falando pouco
amando menos
dizem ser louco
talvez ingênuo
Track Name: Sagração
(outono)

na água gelada do teu rio
o batismo que inicia
o meu outono em tom febril
é amarelo

molha as minhas folhas e leva
vela, Ofélia, por mim
milagres ou quimeras
ora, ora por mim

nas águas passadas do teu rio
é tanto banho de água fria
como de praxe
pela terceira vez num mês
vai chover, chover, chover
pra amadurecer, amor

(primavera)

num passado
tempos idos
eu calado, constrangido, enfim
pude crer, minha vez está
finalmente aqui

que aurora tão minguada
constituição mirrada
florescendo tênue e sacra
a tenra mocidade

eu, receoso juvenil,
o meu peito treme e arqueja
e você sem dó,
teu vestido leve
despeja
um frêmito encarnado
e eriça o meu pudor

ofegante face a face
tão efêmero mal nasce e já esvai

minha senhora
nas alturas puras plenas
sua alteza serena

você vai me deixar essa noite
um ramo invisível de alívio e dor
mil calafrios vão da candura ao rubor
tudo é tão triste tão belo tão revelador
Track Name: Estélio Prates, O Literato
agitado em meio ao desespero de um alarme falso
eu distingui sem alucinação
Vênus que padece o mal de Alzheimer passou perto de você
mas preferiu a mim

já era tarde eu clamava em vão
deusa sacana essa burla é antiga
por favor suma daqui mas não se esqueça dela não

tudo o que eu queria era poder te ver sambar deitada
até aquele dia em que você topou jantar no japonês

riu de mim quando eu tentei com os hashis
e pra engrosso do escracho fez lembrar
que eu sou um sem noção

que a luz da minha casa é a lua
que meu alaúde é um violão
é um violão

eu era da turma do Juninho
que se esconde pra falar de amor
uma vez surpreso no caminho
delatei meu ato com rubor

não conheço o melhor restaurante
mas tenho uma pá de livro bom
Dante, Safo, Pound e essência
de Cortázar e Carlos Drummond

e a gente convida um vinho tinto
e o que de melhor a Bossa tem
que é essa sensibilidade extrema
pruma vida plena e frugal

que uma farra boa a gente faz
nesse paisinho tão difícil
em verão sem praia ou dia frio
em finados ou quartas de cinzas
Track Name: Poxa
eu que pensei tanto em te dizer
coisas de ouvir e se gabar

não custava muito pra entender
um desejo humano e natural

mas na hora H perdi o ar
do ponto alto eu fui mais raso
que nem ela pôde acreditar

eu que faço pouco do que quero
e do desejo eu sou vassalo
incapaz de entender
comigo desaprendo

e num esforço em vão
desesperado eu tentei me explicar
errar eu sei é bem normal
mas quinze vezes só eu
ai meu...

você me olhava e eu já sem juízo
perguntava pra mim mesmo
se o que te comovia era piedade
ou riso
Track Name: Abafado
eu desejo que todo meu suor
seja enxugado pelos lençóis

você avisou mas não chegou em mim
de um grande calor sem fim

invente algum motivo pra me assoprar
pode me morder se se desculpar

está na hora de trocar a lâmpada
muito embora este ambiente denote intimidade
pode fazer arder seus olhos
meu amor

do começo ao fim do singelo cômodo
conto apenas dez passos

mas no final do dia
vai amenizar
e os pássaros vêm tranquilos
(bem-te-vi)

se eu derreter
e você também
nós vamos mesclar num só

abafado
Track Name: Irresoluto
lá vem você oscilando diante dos “porquês”
cautela antecipada traz um bem paliativo
custo benefício do lucro relativo ao fim do mês

além, aquém
vagando nesse vai e vem
um passo pra trás
mais dois adiante
diante dos bloqueios lá vem
seus novos revolteios

nutro um receio
quero estacionar
não te cansa a dança?
eu e você nesse pas-des-deux
no qual só se avança
diante do conforto de retroceder

se não te cansa dança
eu e você nesse pas-des-deux
no qual só se avança
diante do conforto de retroceder

todavia ainda nem brotou um mal pra ultrapassar
se vier a força contra a consumação
também virão recursos pra atenuar

a qualquer momento os planos sofrem uma violação
mantenha o andamento
irresoluto
Track Name: Arrebol
não consigo mais manter o meu humor
qualquer pressuposto basta
pra desencadear o meu rancor

na catraca do metrô querem passar três
é tão desolador o Anhangabaú
depois das seis

no fim do horário comercial
o itinerário é pra acabar comigo
não tenho precedentes de sucesso
no meu menor ingresso duas horas, três reais.

a luz deixou a atmosfera fosca
fechando o lusco-fusco

no congestionamento da capital
atingimos um montante expressivo
na parcela do imposto não contém
o desgosto de encarar duas conduções, um trem?

o sol se pôs no contraponto do farol
arrebol